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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cadeião de Pinheiros é o novo Carandiru de SP

Em algumas celas do CDP-4, onde cabem oito, dormem 40 detentos
Edilson Dantas/Diário SPEm algumas celas do CDP-4, onde cabem oito, dormem 40 detentos












Cadeião de Pinheiros é o novo Carandiru de SP




DIÁRIO entra no CDP de Pinheiros, onde cabem 2.056 presos e estão 5.827. Muitos deles dormem no chão
FERNANDO GRANATO
O Cadeião de Pinheiros, conjunto de quatro CDPs (Centros de Detenção Provisória), na Zona Oeste da cidade, tem capacidade para 2.056 detentos e recebe no momento 5.827 presos. Por isso, já é considerado o novo Carandiru de São Paulo, numa alusão ao famoso presídio da Zona Norte que chegou a abrigar sete mil prisioneiros e foi implodido em 2002, dentro da política do governador Geraldo Alckmin, então na sua primeira gestão, de regionalizar o sistema carcerário do estado em pequenas unidades.
Localizado na beira da Marginal Pinheiros, o Cadeião, pela dimensão que alcançou, não consegue cumprir com suas funções básicas de ressocialização: dos 5.827 internos, apenas 200 estudam e trabalham. Ali, onde era para estar apenas presos provisórios, há detentos condenados e até alguns que já têm direito ao regime semiaberto. O DIÁRIO entrou nesse complexo prisional na última quinta-feira e viu uma ferida aberta no meio da cidade.
 
Eram 15h quando as grades do CDP-2 foram abertas para a entrada da reportagem. Nele estão 1.217 presos no “seguro”, o que na gíria da cadeia significa lugar onde se acolhem prisioneiros com problemas em outras cadeias. São estupradores, usuários com dívidas de drogas, delatores e homossexuais discriminados.

No pátio interno, um pastor da Assembleia de Deus fazia uma pregação acompanhada atentamente pelos “moradores” daquela ala. Falando a mesma linguagem dos detentos, o pastor conclamava todos a “enfrentar o satanás”, que estaria impregnado naquele lugar. “Eu já estive com o pé na cova e fiquei 29 dias na UTI, dado como morto. O que me salvou foi Jesus”, afirmou o pastor. “Glória a Deus”, responderam os presos.
 
No andar de cima desse pavilhão, na cela número 14, ficam os travestis. A cela é toda pintada e decorada com toques femininos. Anderson Costa, ou Natacha Brasil,  está ali há dois anos por causa do roubo do celular de um cliente. “Aqui é cruel”, disse. “A gente tem de se prostituir por dez maços de cigarro, a moeda local, e sofre muita discriminação dos outros presos.” Na cela ao lado ficam os idosos. Amaro da Silva, de 80 anos, disse que não quer ser transferido porque já está acostumado com os colegas e recebe cuidados especiais deles. “É uma família”, afirmou.  
 
Esse CDP é considerado modelo entre os quatro do cadeião. O serviço de saúde, por exemplo, foi premiado por ter conseguido reduzir em 85% os casos de tuberculose entre a população carcerária. Ao seu lado, fica o CDP-4, considerado o pior. Nele ficam todos os presos que estão em trânsito na cidade de São Paulo para audiências judiciais. Na quinta-feira havia 1.798 detentos nessa ala. Em algumas celas, com capacidade para oito pessoas, 40 homens se aglomeravam. Dezesseis deles dormiam nas oito camas disponíveis e os demais 24 espalhavam-se pelo chão, na “praia”, como dizem.

Problemático também é o CDP-1. Esse pode ser considerado o mais tenso do complexo penitenciário. Ali estão os integrantes da facção PCC (Primeiro Comando da Capital) e nem o coordenador geral ousa entrar quando os presos estão soltos no pátio, das 8h às 16h. É o único entre os quatro CDPs onde os detentos se negam a fazer a manutenção da unidade.  O preso aqui, disse um funcionário, “está 24 horas por dia tentando te apunhalar pelas costas”.

Facções rivais ficam isoladas para evitar rebeliões e brigas
O  último CDP visitado pelo DIÁRIO foi o 3, onde estão os membros de uma facção criminosa rival do PCC, o CRBC (Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade). Esses presos são mais desarticulados, embora já tenham protagonizado rebeliões sangrentas, como a ocorrida em maio de 2002 no CDP-1 de Guarulhos, na região metropolitana. O motim teve sete mortos, todos membros do CDL (Comando Democrático da Liberdade), facção da qual o grupo também é inimigo. Dos grupos existentes, o CRBC é considerado o com menor número de adeptos. Ali, no CDP-3, estão 1.146 deles.
 
A maioria passa o dia andando no pátio, em grupos de três ou quatro. “É a maneira que  encontram para se exercitar e tirar a neurose da cadeia”, disse um dos agentes de segurança. Nessas  rodas são traçados planos e fechados negócios. Na presença da reportagem, muitos  viravam os rostos para não serem fotografados, postura completamente diferente daqueles que vivem na cela número 12, chamada “casa de oração”. Nela reúnem-se os evangélicos. “Nesse lugar, onde o senhor diria que só tem coisa ruim, reina Jesus”, disse Elias Araújo, o líder espiritual do pavilhão, também presidiário, que cumpre pena por curandeirismo, charlatanismo e estelionato.

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